Entrevista com Manuel de la Marta - Diretor de Vendas da Sportradar

 

 

A APAJO trabalha de perto com a Sportradar na minimização do risco de manipulação de resultados. Em dezembro de 2019, a Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online - APAJO assinou o primeiro MoU do género com a Sportradar. Hoje, falamos com Manuel de la Marta sobre os últimos desenvolvimentos, no que diz respeito às melhores práticas ao lidar com uma possível manipulação de jogos.

 

APAJO: Apesar de a Sportradar ser uma organização com fins lucrativos focada na venda de dados, levam a corporate governance muito a sério. Criaram mesmo um departamento de Integridade sofisticado e global, que não só ajuda a prevenir o match fixing, como também abrange serviços de antidopagem, due diligence, consultoria e regulação. Como é que tudo isto funciona?

 

Manuel de la Marta: Os Serviços de Integridade da Sportradar funcionam no campo do anti-match fixing há mais de 15 anos. A espinha dorsal do que fazemos é a nossa equipa de Monitorização & Deteção, impulsionada pelo Sistema de Deteção de Fraudes (SDF); o sistema de monitorização de apostas mais sofisticado do mundo. Embora seja uma peça complexa de software, em termos muito simples monitoriza os movimentos de odds através das casas de apostas globais, com quaisquer irregularidades nos mercados de apostas assinaladas para uma investigação posterior mais aprofundada por uma equipa exclusiva de especialistas em integridade. Trabalhamos com mais de 80 parceiros para a integridade em 20 desportos diferentes em todo o mundo, com mais de 800 ligas e competições dependendo do SDF em relaçãoa suas necessidades de monitorização de apostas, incluindo competições da FIFA, NBA, Dorna (MotoGP) e RFEF (Segunda B). Paralelamente, temos várias outras unidades de integridade, como a nossa equipa de Educação & Prevenção, e já tivemos mais de 30.000 participantes a completarem os nossos workshops de integridade. Outros ramos-chave da nossa equipa incluem a unidade de Inteligência & Investigação, que ajuda a identificar e investigar ameaças de integridade e a realizar verificações de processos de due diligence, e os nossos Serviços Antidopagem, que têm no seu cerne o nosso sistema de Monitorização de Desempenho de Atletas, permitindo às organizações antidopagem e às organizações desportivas a oportunidade de concentrarem os seus recursos nos alvos mais suspeitos. Como salientou, prestamos também suporte de Consultoria & Regulação, oferecendo auditorias a programas de integridade e serviços de assessoria jurídica a organizações desportivas. No seu conjunto, estes serviços – e outros – no nosso arsenal criam uma abordagem holística de 360 graus para a luta anti-match-fixing e anti-doping, que é vital neste panorama atual.

 

APAJO: Acha que hoje temos mais consciência em relação à integridade desportiva do que tínhamos há dez anos?

 

Manuel de la Marta: Sem dúvida que sim. A integridade tem vindo, justificadamente, a estar cada vez mais, na vanguarda do desporto nos últimos anos. E não são apenas as grandes federações que estão agora a implementar os procedimentos e sistemas corretos, mas também ligas e campeonatos mais pequenos que se esforçam por proteger-se contra ameaças de integridade o melhor que podem. Na Sportradar, estendemos os nossos serviços a todo o tipo de federações e diferentes stakeholders que apoiam a nossa visão para o desporto sem manipulação, seja através da monitorização, educação, suporte à intelligence, compliance, antidoping, ou idealmente, uma combinação destes serviços.

 

"A vontade política e a legislação são cruciais para enfrentar este desafio também. E para esse efeito, a Convenção sobre a Manipulação das Competições Desportivas (Convenção de Macolin) é um projeto importante, para o qual a legislação criou mecanismos de cooperação internacional e uma moldura estruturada que permite aos principais intervenientes alinharem melhor os seus esforços e coordenarem as suas ações."

 

Quando também olhamos para o crescimento de conferências e workshops em todo o mundo com foco na integridade desportiva nos últimos 10 anos, vemos resultados reais quanto ao destaque dado aos temas da integridade, que já não é vista como algo que surge posteriormente nas infraestruturas desportivas. Além disso, com casos de manipulação de resultados a serem alvo de exposição regular nos órgãos de comunicação social, há uma maior consciência por parte dos fãs sobre os riscos de integridade que enfrentam os seus desportos favoritos.

 

APAJO: Quais são os maiores desafios de hoje quando se trata de reduzir a manipulação no desporto?

 

Manuel de la Marta: Do ponto de vista geral, a abordagem ideal para reduzir a manipulação é garantir a existência de uma coordenação adequada entre todas as partes interessadas. Uma componente crucial disto é a partilha de informação e canais de comunicação claros. Com este quadro em vigor, a par da utilização de sistemas de monitorização, jogadores, equipas, desportos ou regiões podem ser proactivamente direcionadas, dependendo dos níveis de risco. Para responder a este desafio, temos vários Memorandos de Entendimento firmados com organismos desportivos, policias nacionais e internacionais – como a Guardia Civil em Espanha – uma extensa rede que construímos com a indústria de apostas e outras partes interessadas a nível global. A vontade política e a legislação são cruciais para responder também a este desafio. E para esse efeito, a Convenção sobre a Manipulação das Competições Desportivas (Convenção de Macolin) é um projeto importante, através do qual a legislação criou mecanismos de cooperação internacional e uma moldura estruturada, que permite aos principais intervenientes alinharem melhor os seus esforços e coordenarem as suas ações.
A nível individual, o principal desafio para os organismos desportivos é garantir que os seus atletas recebam uma educação eficaz focada na integridade, de modo a que estejam conscientes dos riscos e que compreendam quais são as suas próprias responsabilidades.

 

"No futebol, os jogadores e outros participantes também podem comunicar quaisquer problemas de integridade através da App de Integridade da FIFA, que está disponível para download em dispositivos Apple ou Android. Os participantes podem ter a certeza de que quaisquer problemas que reportem através desta aplicação serão tratados com a máxima discrição e serão cuidadosamente investigados pelas entidades competentes."

 

APAJO: A denúncia de possíveis fraudes é também uma questão importante, especialmente se as pessoas virem que nada vai resultar. Do seu ponto de vista, quais são os melhores mecanismos de denúncia?

 

Manuel de la Marta: Se os procedimentos corretos estiverem em vigor, uma organização desportiva já deve ter um mecanismo de denúncia, como uma linha telefónica de denúncia, ou uma app de integridade onde possam ser denunciadas eventuais violações de integridade num modelo de confiança. Deste modo, a primeira coisa que um jogador deve verificar é qual o processo oficial seguido dentro da sua competição. Isto deve ser evidenciado algures no site da sua organização desportiva, ou em quaisquer materiais/instruções que lhes tenham sido fornecidas, tais como as regras e regulamentos que subscreveram.

No futebol, os jogadores e outros participantes também podem comunicar quaisquer problemas de integridade através da App de Integridade da FIFA, que está disponível para download em dispositivos Apple ou Android. Foi desenvolvida em conjunto com a nossa Unidade de Educação & Prevenção e é um canal de comunicação seguro e confidencial, entre a FIFA e os utilizadores finais. Os participantes podem ter a certeza de que quaisquer problemas que reportem através desta aplicação serão tratados com a máxima discrição e serão cuidadosamente investigados pelas partes relevantes.

 

APAJO: Estamos conscientes de que a educação para os atletas é fundamental. Mas isto é suficiente? A maioria dos atletas não ganha muito dinheiro dentro do seu desporto respetivo, mas tem de ganhar dinheiro de alguma forma.

 

Manuel de la Marta: Tem razão. A educação, por si só não pode impedir a manipulação de resultados. Mas trata-se de uma medida de prevenção crucial que consideramos essencial a todos os níveis do jogo profissional, uma vez que garante que os atletas compreendem as suas responsabilidades na defesa do fair play. No entanto, para que as medidas de educação sejam bem-sucedidas, garante que os atletas compreendem as suas responsabilidades na defesa do fair play. No entanto, para que as medidas de educação sejam bem-sucedidas, têm de ser apoiadas pela aplicação da Lei. O que quer dizer com isto, poderá perguntar. Bem, para dar o seu exemplo do salário dos jogadores, este é um importante fator de risco, nomeadamente se os clubes não pagarem aos seus jogadores e funcionários na totalidade, ou a tempo. Aí o ressentimento irá naturalmente acumular-se dentro da equipa, colocando o clube num risco muito maior de poder estar envolvido numa manipulação de resultados. Os clubes precisam de cumprir os seus deveres e garantir que os jogadores são pagos a tempo e em conformidade com o seu contrato para ajudar a mitigar este risco.

 

"Os clubes precisam de cumprir os seus deveres e garantir que os jogadores são pagos a tempo e de acordo com o seu contrato, para ajudar a reduzir eventuais riscos."

 

Também temos de compreender que muitos e muitas atletas não são profissionais, nem ganham salários a nível profissional, mas participam com conhecimento disso, pelo que as preocupações financeiras não devem conduzir diretamente a problemas de integridade nos níveis semiprofissionais ou amadores. Os mesmos procedimentos de educação e prevenção e de denúncia devem, no entanto, estar disponíveis para estes intervenientes, como forma de reduzir eventuais riscos.

 

"O nosso trabalho já levou a 33 condenações criminais e mais de 340 sanções desportivas até à data. Exemplo recente é o caso "Jogo Duplo" que viu cinco indivíduos condenados a penas de prisão pelo seu envolvimento na manipulação de jogos durante a época portuguesa de 2015/16. Trabalhámos com a polícia portuguesa nas primeiras fases da sua investigação para prestar acompanhamento, formação e apoio de intelligence, e orgulhamo-nos por o nosso contributo ter ajudado neste importante caso contra a manipulação de resultados em Portugal."

 

APAJO: Em termos gerais, diz-se que é muito mais difícil provar que um jogo foi manipulado do que provar um caso de doping. Isto está correto?

 

Manuel de la Marta: Embora esta seja a conclusão natural a retirar, não é necessariamente verdade tendo em conta a nossa experiência. Muitos jogos suspeitos foram provados ao longo dos anos, incluindo muitos detetados pela Sportradar. Com efeito, o nosso trabalho já levou a 33 condenações criminais e mais de 340 sanções desportivas até à data. Exemplo recente é o caso "Jogo Duplo" que viu cinco indivíduos condenados a penas de prisão pelo seu envolvimento na manipulação de jogos durante a época portuguesa de 2015/16. Trabalhámos com a polícia portuguesa nas primeiras fases da sua investigação para prestar acompanhamento, formação e apoio de intelligence, e orgulhamo-nos por o nosso contributo ter ajudado neste importante caso contra a manipulação de resultados em Portugal. Os resultados são claros para se perceber o que pode ser alcançado quando diferentes partes interessadas no desporto trabalham em conjunto, para reunir as provas suficientes que demonstrem que um jogo foi combinado.

No entanto, o que os casos antidoping têm a seu favor é o prazo. Obter um resultado positivo de doping é uma evidência física que pode levar a provas quase instantâneas de transgressão, enquanto um caso de manipulação de resultados pode levar tempo a construir e ter maior complexidade. No entanto, deve ficar claro que os primeiros indícios de manipulação de resultados são frequentemente detetados no momento, através de dados de apostas obtidos por via dos sistemas de monitorização como o SDF. Em geral, construir um caso de match-fixing do início ao fim pode ser um processo lento. Mas em última análise pode levar, e leva, a resultados positivos.

Devo também realçar, agora que estamos a funcionar com os nossos serviços de antidopagem, que haverá sem dúvida coisas que aprenderemos com os nossos peritos em doping e que podemos utilizar nas nossas operações anti manipulação de resultados, e vice-versa. Essa colaboração em diferentes áreas tem impulsionado a nossa equipa de integridade e o serviço que prestamos aos nossos clientes ao longo dos anos. E esperamos que o mesmo se concretize também no Antidoping.

 

APAJO: Apostas desportivas: o problema ou a solução?

 

Manuel de la Marta: Nenhum dos dois! Seja qual for a sua posição pessoal sobre apostas desportivas, tem de aceitar que está entrelaçada no tecido dos eventos desportivos. E tem sido indiscutivelmente assim desde o início do desporto organizado. Na nossa experiência, qualquer tentativa de proibir apostas desportivas não é benéfica para o combate à manipulação de resultados e acreditamos numa abordagem prática da regulação das apostas desportivas, com regras operacionais claras, orientações e sistemas de licenciamento. Isto pode ser visto em grandes mercados europeus como os de Espanha e Itália. E também, como vemos agora, em Portugal com os regulamentos do RJO e associações como a APAJO.

 

"As casas de apostas que operam em mercados não regulamentados não respondem perante os reguladores. E não têm qualquer incentivo para denunciar suspeitas de fraude nas apostas, uma vez que não existe um canal oficial para que comuniquem essas informações. Os match-fixers estão cientes disso e tentam explorar esta fraqueza."

 

Muitas vezes é nas regiões onde as apostas desportivas são proibidas que se testemunham algumas das piores questões de manipulação de resultados. E a razão para isso é clara; as casas de apostas que operam em mercados não regulamentados não respondem perante os reguladores. E não têm qualquer incentivo para denunciar suspeitas de fraude nas apostas, uma vez que não existe um canal oficial para que comuniquem essas informações. Os match-fixers estão cientes disso e tentam explorar esta fraqueza, mas penso que muitos governos a nível global estão agora conscientes desta situação, com as medidas de integridade a serem um dos principais focos à medida que mais países vão legalizando as apostas desportivas. Em geral, com as disposições corretas em vigor, a luta anti-match-fixing é reforçada por uma infraestrutura de apostas desportivas saudável.

 

APAJO: Muito obrigado, Manuel, pelo seu tempo, e por estas explicações muito perspicazes.

 

Manuel de la Marta: Muito obrigado. Estou à disposição sempre que quiserem.